Do ‘Colégio Clandestino’ à Escola Básica e Secundária

40 anos celebrados na Ponta do Sol

40 anos da EBS da Ponta do Sol | 1977–2017
A 5 de janeiro de 1977, nascia oficialmente a Escola Preparatória da Ponta do Sol. 
As atividades iniciaram-se no mês seguinte, com sete turmas, quatro do atual 5.º ano
e três do atual 6.º ano.
Na celebração dos 40 anos da herdeira Escola Básica e Secundária da Ponta do Sol, 
foram recolhidos testemunhos de alguns participantes diretos nesta história de sucesso.
A generalização do ensino e a qualidade da educação na Ponta do Sol tiveram um percurso 
longo e são resultado da perseverança de muita gente. A história começa ainda antes do
período democrático em Portugal.

Era uma vez…


A professora Gabriela Relva, impulsionadora da escola

Educatio (ED)— Como surgiu a ideia de criar a escola na Ponta do Sol?

Gabriela Relva (GR) — O processo de criação da escola da Ponta do Sol vem de antes do 25 de abril. Um grupo de pontassolenses reuniu-se e apresentou um abaixo-assinado ao Ministério da Educação — Veiga Simão era, então, Ministro.

Apelava-se à criação de uma escola na Ponta do Sol.

Os nossos jovens concluíam a quarta classe e não tinham oportunidade de continuar estudos, a não ser no Funchal, que se tornava muito distante. A distância era outra, era tudo muito diferente, e acarretava muitas despesas. Na Ribeira Brava, concelho vizinho, havia já a Escola Preparatória, mas também era preciso sair do nosso concelho…

Este processo veio a culminar com o 25 de abril, pois a revolução democrática foi a chave e abriu as portas para a criação da Escola da Ponta do Sol. No início dos anos setenta, um grupo de pessoas da Ponta do Sol — o Padre Manuel Marques (pároco da Lombada, muito dinâmico), com outras pessoas que tinham já formação secundária ou superior — fizeram nascer o ‘Colégio Clandestino’, onde iniciei as minhas funções de professora, sempre com o intuito de demonstrar que era possível, um dia, ter uma escola pública.

Em 1977, este deixou de existir, a partir do momento em que surgiu a escola.

ED — O ‘Colégio Clandestino’ tinha reconhecimento oficial?

GR — O ‘Colégio’ funcionava com o ensino particular doméstico. Preparávamos os alunos desde o que hoje corresponde ao 5.º ano até ao 9.º ano. No fim de cada ciclo de escolaridade, iam fazer exame às escolas do Funchal: à Escola Gonçalves Zarco ou, no caso do ensino liceal, ao Liceu Jaime Moniz.

Era assim que os nossos jovens — cujos professores da escola primária já deixavam indicadores de serem crianças com capacidades e com vontade de estudar, mas que não pensavam continuar estudos — passavam a frequentar o ‘Colégio Clandestino’.

Tivemos muitas vitórias e muitos sucessos.

Chegámos, inclusive, a receber jovens da Ribeira Brava e até da Calheta.

ED — Ou seja, acabaram por demonstrar a necessidade de existência da escola…

GR — Foi isso mesmo! Depois da Revolução do 25 de Abril, surge a Autonomia Regional e, em particular, a regionalização do ensino. É publicada em Diário da República, no início de janeiro de 1977, a criação da Escola da Ponta do Sol.

Pôr a escola de pé foi um processo muito complicado.

Não havia professores profissionalizados. Éramos um grupo de jovens, na maioria sem habilitação própria, mas trabalhámos muito, de noite e de dia, e pusemos a escola a funcionar.

Edifício do Patronato

Inicialmente tínhamos o ensino preparatório. A partir de 1987, com a escolaridade obrigatória a passar para nove anos, não havia condições, porque estávamos num antigo solar da fidalguia, chamado ‘O Patronato’, e não havia espaços. Tivemos que ocupar uma parte, algumas salas, do Solar dos Esmeraldos, onde funcionava a escola do primeiro ciclo. Arrancámos com o sétimo ano do ensino unificado e funcionávamos até ao nono ano.

Solar dos Esmeraldos

A oficialização do ensino secundário já foi no novo edifício.

Tínhamos outras condições, havia espaços e arrancámos, em 2001/2002, com o ensino secundário — o 10.º ano.

Edifício novo

ED — Os saltos no estatuto da escola deveram-se ao alargamento da escolaridade obrigatória ou ao aumento das necessidades?

GR — O motivo foi o aumento da população estudantil, porque os nossos primeiros alunos eram crianças que frequentavam o 5.º e o 6.º ano. Havia alguns da telescola, mas muito poucos. A telescola continuou a funcionar durante mais de uma década na Freguesia dos Canhas e numa escola do Lombo de São João, na zona mais alta da Ponta do Sol. Só mais tarde, quando terminou a telescola, esses alunos vieram aumentar a população estudantil. Estes alunos passavam a frequentar a escola depois de concluírem o segundo ciclo. Eu recebi — como professora do terceiro ciclo — muitos destes jovens para frequentar o sétimo ano. Com o fecho da telescola, que já não se justificava, passámos a ter uma população estudantil muito maior.

Eu e os meus colegas professores, para alimento do nosso trabalho, fomos estudantes-trabalhadores e fomos concluindo o curso.

Quando comecei a lecionar, estava a frequentar o primeiro ano do curso de História. Aos poucos, a escola foi sendo cada vez mais exigente. Os seus professores foram adquirindo habilitação profissional e, hoje, esta é uma escola de referência no concelho e na Região.

ED — Fez o curso de História em que instituição?

GR — Fui aluna da Universidade Clássica de Lisboa, mas pertenci ao grupo de estudantes madeirenses que beneficiou da extensão da Universidade Clássica de Lisboa na Madeira. O curso de História deu o arranque e só depois apareceu o curso na área das Línguas e das Literaturas.

Fomos os primeiros alunos da Madeira a concluir o curso cá.

ED — Qual foi o ponto fulcral de toda esta evolução?

GR — A construção e a solidificação da identidade da nossa escola não foi nada fácil, foi com muitas lutas. Não foi só a questão dos espaços físicos, houve muitas outras dificuldades, mas quando temos sonhos e queremos realizá-los consegue-se, com muito trabalho, com muito esforço e com muito empenho.

A Escola Básica e Secundária da Ponta do Sol deve ter orgulho porque dela têm saído jovens — hoje, referências como cidadãos e cidadãs — que se tornaram pessoas ativas na construção da nossa região e do nosso país.

A funcionária Isabel Neto, na escola desde a fundação

ED — Como tem sentido a evolução destes 40 anos?

Isabel Neto (IN) — Tem sido uma evolução positiva. Começámos com o segundo ciclo, tivemos o anexo com o terceiro ciclo e depois passámos para este edifício novo com o ensino secundário.

É uma evolução que contribuiu sempre para o bem da população e do concelho.

ED — O funcionamento da própria escola foi ficando mais complexo?

IN — Como a escola cresceu, a tarefa tornou-se mais complexa. Há mais trabalho, há outras necessidades, outras situações a que temos de estar mais atentos.

ED — Na escola, há um sentido de comunidade. Foi-se criando aos poucos ou é muito mais recente?

IN — Sinto o atual sentido de comunidade como mais recente, porque as pessoas que estavam foram-se embora aos poucos. Uns reformaram-se, outros faleceram e nós vamos sendo poucos.

No início, quando a escola começou, éramos como uma família, tanto professores como funcionários.

Depois a escola cresceu e agora é mais difícil conhecer toda a gente. Conheço os nomes, mas nem sempre os consigo associar a um rosto. É uma família que a gente conhece e com quem fala, de parentes amigos, mas um pedacinho afastados. Antes íamos para todos os lados juntos, porque também era uma comunidade pequenina.

Atividades nos espaços antigos e no centro da Vila da Ponta do Sol

ED — O impacto no concelho da Ponta do Sol foi valioso?

IN — Claro que sim!

Os miúdos deixaram de ter de ir para a Ribeira Brava ou até mesmo para o Funchal.

Para o Funchal podem ir por opção, mas anteriormente era mesmo obrigatório. Eu tive a minha filha mais velha lá em baixo no 2.º ciclo; depois, no 3.º ciclo, já teve de ir para a Ribeira Brava, julgo que não foi para o anexo. Mais tarde, chegou o anexo e foi sempre uma evolução positiva nesta escola, em tudo, e uma pessoa tem feito por isso!

ED — O que a marcou na escola e que será para a vida?

IN — A amizade que fiz com tanta gente que por cá foi passando ao longo dos anos.


O antigo aluno Rui Marques, Presidente da Câmara Municipal

ED — Como foi a sua experiência enquanto aluno desta escola?

Rui Marques (RM) — A minha experiência foi sempre boa, tendo em conta o contexto da altura. […] Comparar tempos é difícil, mas foi entre 83 e 89.

ED — A organização da escola era familiar ou já era uma organização em crescimento?

RM — Era já uma escola a crescer. Estamos a falar de um edifício pequeno, onde funcionavam dois anos [5.º e 6.º anos]. O edifício do “Solar dos Esmeraldos” já era maior e nele funcionavam os três anos [7.º, 8.º e 9.º anos]. Éramos como uma família, conhecíamo-nos todos, tanto professores como alunos, dado que o ambiente era pequeno.

Na minha altura, não havia 10.º, 11.º e 12.º anos.

Neste edifício recente (de 2001, salvo erro), a escola abrange mais anos e funciona, atualmente, do 5.º ao 12.º anos.

Hoje, falamos de um universo a rondar os novecentos alunos, com muitos professores e muitos funcionários.

Provavelmente, há aqui muitos alunos que passam uns pelos outros e não se conhecem, ao contrário do outro edifício, em que o ambiente era mais pequeno e o convívio era outro. No entanto, o edifício novo tem outras condições para os professores lecionarem, como também tem outras condições para os alunos progredirem na sua carreira estudantil.

ED — Na altura, já havia estudantes de diversas proveniências, de diversos estratos sociais?

RM — Tal como o Secretário Regional de Educação referiu [nas comemorações], há uns anos 60% das nossas crianças e jovens não faziam parte da escola. Temos a escolaridade obrigatória e também existem alunos que querem ter outra formação a nível profissional, que querem progredir na sua vida. A presença é maior.

Já tínhamos pessoas oriundas de vários estratos sociais, sem sombra de dúvida.

ED — O que recorda com mais emoção?

RM — Recordo os meus colegas. Aqueles ambientes pequenos permitiram que fizéssemos relações para a vida toda. Hoje, trabalho com pessoas que foram minhas colegas desde o 5.º ano e um dos meus professores desse 5.º ano é meu colega de vereação na Câmara Municipal da Ponta do Sol.

Há mesmo coisas que ficam para a vida e isso é o melhor que temos.

ED — A escola contribuiu para a pessoa que é?

RM — Contribuiu muito. Devo muito a professores que foram exigentes comigo, mas que acima de tudo foram meus amigos. Podiam exigir e puxar-nos as orelhas, mas para sermos cada vez melhores alunos.

Os professores eram quase segundos pais para nós.

Recordo, com carinho, os professores Gabriela Relva, Margarida Relva, Inácio Silva e Paula Ramos. Também tive outros professores, alguns que já não exercem ou que escolheram outra carreira profissional, mas estes quatro ou cinco professores são os que mais me marcaram.


A professora Luísa Santos, Presidente do Conselho Executivo

ED — Como chegou à escola?

Luísa Santos (LS) — Após a minha licenciatura, estive em vários espaços, nomeadamente, no Gabinete do Desporto Escolar, onde fiquei dez anos. Após este tempo, decidi regressar à escola. Sou professora de Educação Física e é um prazer muito grande estar com os meus alunos. Eu precisava desses momentos.

Cheguei aqui à escola e fui muito bem recebida, nomeadamente pela professora Gabriela Relva, que era a Presidente do Conselho Executivo de então.

Um ano depois, tive a felicidade que me convidasse para pertencer à sua equipa. Após esses quatro anos, houve novas eleições, mas não fomos eleitos. Voltei a dar aulas com muito prazer.

Atividades no edifício novo

ED — Como é ser Presidente do Conselho Executivo?

LS — Depois, a escola passou por outro processo e candidatei-me à Presidência do Conselho Executivo, com uma equipa excelente de outros quatro elementos. É um desafio.

É uma forma diferente de estar na escola, em que ficamos com noção da abrangência e da globalidade da instituição.

Mas volto a dizer que sou professora e que, dentro em pouco e de modo natural, voltarei à minha profissão e a estar diretamente com os meus alunos.


O aluno António Faria — Presidente da Associação dos Estudantes

ED — Como é a experiência de estares à frente da Associação dos Estudantes?

António Faria (AF) — Foi tudo um pouco inesperado. Não era nada que eu tivesse previsto. Foi uma proposta do “Espaço Sol” e eu e um grupo de amigos decidimos avançar, mas foi tudo muito em cima da hora.

[…]

ED — Qual é o teu desejo especial nos 40 anos da tua escola?

AF — Desejo que a escola se consiga organizar para que os alunos que cá andam desempenhem um bom papel enquanto alunos, ou seja, que queiram mesmo aprender. E que não estejam cá apenas por obrigação, que gostem minimamente do que fazem.

ED — O que é que a EBS da Ponta do Sol tem de diferente?

AF — Todas as escolas são únicas. Posso até falar de coisas que existem só nesta escola, mas na verdade os alunos que cá andam é que fazem a escola. Ou seja, todos os anos, a escola muda e, dependendo dos alunos que estão aqui, a escola vai melhorando ou piorando.

A escola vai melhorando porque, cada vez mais, tem alunos com objetivos, que vão dinamizando atividades que só aqui acontecem.

Se, há alguns anos, esta escola era mais problemática a nível dos comportamentos e dos aspetos sociais, agora enquadra-se num meio mais saudável. Julgo que é uma coisa a acentuar aqui na escola.

ED — Qual é o grande objetivo da Associação de Estudantes para este ano letivo?

AF — Como fomos o primeiro grupo oficial da associação, o nosso primeiro objetivo é (como vamos sair este ano da escola) que outro grupo continue com os projetos que temos e que consiga, ainda, desenvolver outros, de forma a aumentar o impacto na escola. Esse é o primeiro desafio que temos.

ED — Quando foi criada a Associação de Estudantes?

AF — Começámos a dar corpo à nossa associação no final do ano letivo passado. O processo de formalização, em termos legais, foi todo um pouco complexo, se bem que tivemos o apoio da Direção Regional de Juventude e Desporto. […] Mas o que nos dificultou, ainda mais, foi que o processo inicial não tinha sido feito de forma legal e tivemos de fazer tudo de raiz, ou seja, demorámos dois anos a fazer tudo direito e de forma legal.


Em complemento, sugere-se a leitura do texto da professora Gabriela Relva. Visite o sítio da EBSPSOL na hiperligação abaixo.

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